Entrevista: Bernardo Scarambone (berber)
Utiliza o pseudônimo de "berber", que nada mais é do que a repetição das primeiras letras do seu primeiro nome. Quem observa suas participações em fórum não imagina que por trás desse apelido singelo e do seu jeito simples, sempre descontraído e bem-humorado, se esconde um dos grandes talentos da nova geração de pianistas do país. Recém doutorado em Houston, Estados Unidos, com tese sobre a obra para piano do compositor brasileiro contemporâneo Marlos Nobre de Almeida, também é responsável pela estréia mundial de uma das composições do referido compositor. Sua tese e suas interpretações prometem trazer muita luz sobre a música de Marlos Nobre. Bernardo Scarambone prestigia, acima de tudo, a música atual e brasileira.
Essa entrevista tem como objetivo divulgar o seu trabalho. Segue, também, um breve resumo da biografia do músico brasileiro.
__________________
Biografia
Bernardo Scarambone nascido no Rio de Janeiro, Brasil, onde começou seus estudos de piano aos 11 anos de idade. Desde então, Dr. Scarambone tem sido considerado um dos mais talentosos e bem-sucedidos pianistas de sua geracão, com um total de 13 prêmios em concursos nacionais e internacionais. Bernardo Scarambone se apresentou em diversas salas de concertos e em master classes e festivais de musica em Brasil, Portugal, Espanha, Franca e EUA.
Ele tocou com varias orquestras importantes: Sinfônica Nacional, OSESP, OSPA, Indiana University Philharmonic Orchestra, Baytown Symphony entre outras. Dr. Scarambone recebeu seu bacharelado da universidade federal do Rio de Janeiro em 1987 e uma bolsa de estudos para o Mestrado em Indiana, onde estudou sobre a supervisão do pianista Alexander Toradze, vencedor do Van Cliburn. Bernardo Scarambone completou seu mestrado em 1999 e no ano seguinte recebeu outra bolsa para fazer o doutorado em Houston (University of Houston). Bernardo Scarambone sempre desenvolveu atividades relacionadas com a musica brasileira e musica latinoamericana, como o Alabama International Festival – BRAZIL”, em Georgia, ou “International Piano Festival” em South Bend, Indiana. Suas apresentações de musica brasileira são sempre aclamadas pelo publico e critica. Bernardo Scarambone completando seu doutorado na University of Houston, em abril desse ano (2006).
Fonte: http://wwwappstc.nhmccd.edu/ehm/music/website/People.html (traduzido da home page de uma universidade onde Bernardo lecionou, em Houston).
Entrevista
Com intermédio de quem você iniciou os seus estudos musicais (houve algum incentivo)? E desde quando descobriu (e começou a apreciar), realmente, a música clássica?
Eu comecei a estudar piano com a dona Judith, professora do colégio. Tínhamos aulas eu e meu irmão, Bruno, na casa dela. Tinha uns oito ou nove anos, mas não considero esse meu inicio com o piano. Ela ensinava que o polegar só poderia tocar o do central, mais nenhuma nota! O dedo indicador era o dedo do ré, e etc. Eu aceitava aquilo, mas nunca entendi o porquê do piano ter mais de dez notas, afinal temos somente dez dedos, e se cada dedo é reservado para uma única nota...
Dali em diante foram umas aulas típicas de piano. Acho que fiquei um ano ou menos tendo aulas e desistimos. Depois de um tempo – eu tinha treze anos – minha mãe me apresentou um “professor de piano” conhecido de minha tia da igreja que ela freqüentava. Aí sim tive um inicio “sério”.
Esse sério em termos, pois eu só estudava mesmo meia hora antes das aulas. Só passei a ver musica como coisa séria depois, mas isso já é outra historia... A primeira vez que eu notei que aquilo que eu tocava era “digno” foi quando eu ouvi um pianista na televisão tocando a sonata fácil de Mozart – a em dó maior, que todo mundo toca. Pensei: “Uau! Eu estou tocando essa música que esse pianista toca! Legal!”
Você possui músicos na família? Quais?
Sim, minha família sempre teve algum tipo de relacionamento com musica.
Meu pai sempre gostou de improvisar ao piano. Ele chegou a fazer parte de uma turma de amigos e conhecidos do Tom Jobim. Minha tia namorava um musico – não sei o nome –, mas o pessoal começou a entrar em drogas e coisas do gênero e meu pai pulou fora. Minha mãe sempre gostou de musica, mas até hoje só sabe “ler a mão direita no piano”. Ela faz parte da associação da orquestra da Pró-Música – Oppm, mas acho que mudou de nome para orquestra Petrobras, ou coisa assim. Meu irmão toca piano e é professor de musica na Alemanha, em Baden-Baden, ensinando crianças. Meu tio-avô (Francisco Scarambone) era o músico famoso da família. “Maestro Scarambone”. Ele acompanhava cantores e tocava piano na Rádio Nacional. Meus avôs tinham uma “banda de música”, onde cada irmão (e eram treze) tocava um instrumento. Saxofone, piano, bateria, violao, etc. Uma zorra! (risos).
Quais eram/são as profissões dos seus pais?
Pai engenheiro civil, mãe fonoaudióloga.
Quando você percebeu que tinha, realmente, talento para a música?
Por ocasião do meu terceiro concurso. No ano em que eu entrei para a Escola de Música, eu fiz três concursos de piano: Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Araçatuba. Tirei terceiro lugar nos três. Aí pensei: “Gostei! Conheci um monte de gente, viajei e ainda tirei prêmio. Vou continuar!”
Quais foram as suas principais realizações e/ou aprendizados antes do bacharelado?
Que estudar é muito importante. No palco, você está tocando para você mesmo, não para o público. Uma vez minha mãe me perguntou: “Bernardo, vale a pena estudar mais de um ano uma musica para receber no máximo três minutos de aplausos?” Eu disse que não estava tocando por aplausos, e sim por mim mesmo. Acho que isso é que é importante.
Enquanto você estudava piano, começou a fazer engenharia, mas parou o curso para se dedicar ao piano. Você iniciou antes a faculdade de piano ou a de engenharia? E quais eram os seus planos e perspectivas para a sua carreira profissional naquele tempo?
Foi o seguinte: na hora do vestibular, eu tinha que escolher entre música e outras coisas. Eu acabei fazendo vestibular de musica para a UFRJ, de engenharia para a PUC e de arquitetura para a Uni-Rio. Pensei: “na que eu passar, eu curso”. O problema é que eu passei nas três! Fiquei então entre música e engenharia. Matriculei-me nas duas, mas tranquei a PUC antes mesmo de ter uma aula. Deixei a vaga “guardada” por um ano. Decidi dar uma chance à música: se em um ano não gostasse, faria engenharia, como meu pai. No final daquele ano, já tinha me decidido pela musica.
Fale um pouco sobre o seu período de bacharelado.
Foi a melhor parte, tratando-se de amizades e festas. Muitos namoros escondidos nas salas de estudo e por trás dos palcos, muitas historias engraçadas. Você não tem nenhuma responsabilidade, né? Está lá para tocar piano, ir a festinhas, etc. Bons tempos que não voltam mais...
Em que ano e com que idade você foi para Indiana com a bolsa de estudos para o mestrado? Você não sabia inglês e não conhecia ninguém nos EUA. Quais foram as suas maiores dificuldades nesse período? E como conseguiu superá-las?
Foi em 1998, com 26 anos. Formei-me em 1994 na UFRJ e fiquei esses quatro anos só tocando piano em concursos, concertos e recitais. Aí me inscrevi na CAPES para a bolsa de estudos. Acabei ganhando a oportunidade – el pagariam tudo, inclusive a passagem de ida e volta. Eu só tinha que decidir para onde ia. Passei o verão na Europa fazendo um festival e música. Acabei aprovado para o Conservatório de Paris, a Escola de Musica da Rainha Sofia, em Madrid e em Indiana. Por alguma razão, o governo brasileiro não aceitou a escola de Madrid e eu tive que decidir entre Paris e Indiana. Pensei: “que decisao “difícil”. Paris, lógico!” Só que eles avisaram: “sem problema, só que você vai ter que provar que fala francês até o final do mês, senão pode desistir da bolsa. Tive que ir para Indiana – e hoje não me arrependo!
Eu só conhecia um amigo meu – Paulo – que estudava piano também em Indiana. Fui com a cara e a coragem –e a bolsa de estudos, é claro... Mas o inglês era primário mesmo, não sabia falar nada! A primeira “aula” de escrita básica – sim, tive essas aulas chatas também – foi um martírio! A professora deu a aula inteira em inglês! – óbvio – e no final, minha cabeça doía... Dali em diante, fiquei horas lendo o dicionário e ouvindo radio. Mas ainda assim levei mais ou menos um mês para conseguir entender realmente o que estava se passando. Nas aulas de piano a coisa era mais fácil, o vocabulário musical é mais ou menos internacional – piano, crescendo, etc. E o que eu não entendia, o professor mostrava no piano.
Fale um pouco sobre sua tese de mestrado (período e conteúdo).
O mestrado foi muito bom porque fiquei em contato com pianistas de verdade. Aqueles que fazem turnês pelo mundo tocando com orquestras de verdade. As aulas eram incríveis. Logo na primeira o professor me disse: “você vai tocar o concerto de Brahms. Semana que vem me traga os dois primeiros movimentos...” E ai de você se não trouxesse... Foram dois anos aprendendo a arte de se apresentar em publico e aprender músicas muito rapidamente. Esse mestrado não teve tese – graças a Deus! – mas muitos concertos e recitais. As aulas teóricas foram menos puxadas, só me lembro mesmo das aulas de pedagogia, onde tive que aprender todas as regras de trinados e mordentes do barroco e rococó, e umas aulas de história da musica, no mais ficava mesmo nos “practice rooms”, estudando piano.
Quais foram as suas principais atividades profissionais e acadêmicas nos Estados Unidos?
Toquei muito por aqui. Indiana, Chicago, Houston, Michigan e Alabama. Com algumas orquestras e muitos recitais. Dei umas aulas em um “master classes”, alunos particulares direto, aulas na Universidad de Houston e num colégio/universidade, onde eu era o professor de música, piano, teoria, etc. Eu diria que em Indiana eu toquei mais, e em Houston eu ensinei mais.
O que mais você valoriza (ou prioriza) no seu repertório?
Eu adoro Beethoven e Bach. Mas priorizo mesmo música contemporânea (não só brasileira). Acho que tem tanta gente tocando Chopin, Liszt, Rach, etc. E que muito dificilmente alguém tocará melhor do que um Pollini, Arrau, ou Gileles. Esse repertório já tem e teve seus “intérpretes ideais”. O repertório contemporâneo ainda não. E esse é o caminho a ser seguido, se alguém quer se destacar de alguma maneira. Imagine que você vai a uma loja de CDs querendo uma Sonata de Beethoven. Existem mais de vinte opções. Mas uma música de Cowell, ou Ligeti, ou mesmo Marlos Nobre, você não encontra facilmente.
Fale um pouco sobre a sua tese de doutorado (o período e conteúdo).
A tese de doutorado foi sobre a música para piano de Marlos Nobre. Fiz um monte de entrevistas com ele através de emails, e descobri muitas informações erradas sobre a carreira dele. Muitos artigos falavam besteira – desde chamá-lo de “Marcos Nobre” até mesmo plágio. Analisei cinco obras para piano. Entre elas, uma que eu fiz a estréia mundial, a “Sonatina”. Acho um trabalho importante para valorizar o que é nosso e ao mesmo tempo o repertório contemporâneo, corrigindo muitos erros na biografia do Marlos.
Fale um pouco sobre as suas participações em concursos.
O primeiro concurso de piano foi em Juiz de Fora – não tinha a mínima idéia do que iria acontecer, e sinceramente, nem me importava. Fui mais na festa, viajando, conhecendo pessoas, etc. Tirei o terceiro lugar. Nnem mesmo minha professora esperava nada assim. Depois fiz mais dois: um no Rio e outro em Araçatuba e tirei mais dois terceiros lugares. Conheci muita gente. No ano seguinte, fiz dois – acho que em São Paulo – e ganhei primeiro lugar. Depois disso, fiz mais um monte de concursos – ao todo treze ou quatorze – e ganhei prêmios em todos. O mais engraçado foi uma torta de chocolate como primeiro lugar! O primeiro internacional foi em Seattle. Mas só fui até a semifinal.
Quando você começou a trabalhar na loja de pianos em que atua atualmente? Como é ser um representante da Steinway? (fale-nos um pouco sobre esse seu lado comercial).
Isso foi em 2001, eu estudando no doutorado. Eu acompanhava um coro de crianças, e ganhava um dinheirinho que ajudava. Aí o acompanhador “oficial” voltou de viagem e eu fiquei sem emprego. Uma professora da universidade me disse que uma loja de pianos estava procurando alguém para tocar e demonstrar os pianos. Eu pensei “Oba, um bico!” Fui lá e me contrataram. Depois de um ano, eu vendi tantos pianos que eles quiseram me bancar o visto de trabalho. Depois me ofereceram uma posição na Califórnia que eu aceitei. Trabalhar com Steinways é muito legal, você conhece os pianistas que tocam pelo mundo, além de ter os melhores pianos do mundo para estudar depois da loja fechar. Aliás, se não fosse esse emprego, não teria o “piano da velhinha” em casa, né?
Como foi, mesmo a história do "piano da velhinha"?
A história do piano da velhinha foi assim: Eu trabalhava na loja de Houston, e um belo dia chegou um piano de cauda todo trabalhado à mão, bonito mesmo. Fui até onde os afinadores trabalham para ver o piano e vi que ele não tinha as cordas cruzadas, e tinha menos teclas do que os pianos atuais. Pelo estilo, dava para ver que o piano era antigo. Pesquisei um pouco o nome e vi que o piano tinha sido feito em 1840! Em Viena... Perguntei para o gerente o que eles fariam com o piano e ele disse que iriam devolver à dona, porque ninguém iria comprar um piano tão velho. “Tudo bem”, pensei. Mas acontece que quando eles tentaram contatar a dona, a velhinha tinha morrido! E o piano ficou lá na loja esperando algum familiar ir buscá-lo. Depois de seis meses, ou mais, o gerente mandou limpar toda aquela área e expandir o salão de vendas. Ele disse para jogarem o piano no lixo! Eu telefonei para museus, universidades e tentei argumentar que o piano era da época em que Brahms e Liszt estavam vivos! Um piano de cauda daqueles deve ter estado em uma casa de gente rica e famosa daquele tempo, em Viena... Ninguém me ouviu, e o gerente me disse: “Temos que limpar essa área, Você quer o piano? Leve-o daqui!” No mesmo dia eu aluguei um caminhão por vinte dólares e levei o piano para casa! Em casa, removi a ação do piano com as teclas. Atras das teclas achei varias pétalas de rosas ressecadas! Uma surpresa bem legal. O piano ainda está em Houston, num depósito, junto com as minhas coisas. Tive que deixá-lo por lá quando me mudei para a Califórnia, mas ainda vou colocar esse piano em forma e tocar um recital com obras de Liszt e Brahms nele. Um piano desses em perfeito estado de conservação vale uns quarenta mil dólares! Essa é a historia do piano da velhinha...
Com quais dos principais nomes da música nacional e internacional (músicos, maestros, etc.) você já teve contato, ou teve a oportunidade de trabalhar? Cite alguns nomes.
Vladimir Viardo, Alexander Toradze, Korsantyia, John Nakamatsu, Zimmerman, Kirov Orchestra, Gergiev (o maestro) – aliás, jogamos futebol juntos. É muito “fominha”. (risos)
Você atua na área de concerto, comercial, acadêmica, e costuma participar ativamente de fóruns de música clássica, na internet. Como você consegue tempo para tudo isso?
Nao sei! (risos)
Você já tocou com a OSESP? Como foi (e com qual maestro)?
Com a OSESP foi em 1992. Toquei o concerto de Prokofieff, depois de ganhar o concurso da OSESP. Também ganhei o concurso da OSPA, que era da mesma época. O Eleazar de Carvalho era o maestro das duas orquestras e elas tinham os concursos para solistas ao mesmo tempo. Então fui a São Paulo e depois a Porto Alegre. Com a OSESP eu toquei com o Roberto Tibiriçá, e com a OSPA acabei tocando com um regente argentino, depois de um ensaio com o próprio Eleazar.
Você acaba de concluir sua tese de doutorado. Quais são agora os seus planos para o futuro? Pretende continuar trabalhando na área comercial e morando nos Estados Unidos?
Quero publicar uns artigos em revistas especializadas de música, dar muitas aulas, e continuar tocando e fazendo pesquisas.
E o jazz?
Ah, o Jazz... O jazz bem tocado é maravilhoso. Não consigo improvisar nada de valor. Adoraria poder sentar ao piano e tocar, improvisar... Mas nã consigo. Jazz para mim é infelizmente somente algo que gosto de escutar.
Você sente saudades do Brasil? Pretende voltar?
Claro! Aqui não tem futebol, nem guaraná. Sinto muitas saudades: catupiry, coxinha de galinha, praia, chopp... Não sei se volto tão cedo. Meu primeiro sonho era fundar uma escola de música no Brasil, onde não houvesse nenhuma politicagem – utópico, eu sei... – e para que os alunos de musica não precisassem sair do Brasil como eu saí para receberem uma formação boa.
O que você tem a dizer sobre o cenário atual da área musical profissional brasileira? Como você vê as perspectivas nesse campo, em nosso país, morando nos Estados Unidos? É possível se formar e atuar como músico sem ir para o exterior? Afinal, dá para viver de música no Brasil?
Acho difícil viver de música no Brasil. Possível sim, mas difícil. Se você toca um instrumento de orquestra, e conhece as pessoas certas, pode arrumar um emprego em uma ou duas orquestras. Com o piano é mais difícil, pois você só tem a opção de dar aulas ou tocar. Como para tocar você depende muito do QI (quem indica), e dar aulas não é sempre uma fonte de renda segura, já viu... A saída do Brasil é válida para alguém que quer sair da mentalidade brasileira. Digo isso sem nenhum preconceito, mas na verdade os professores atuais tiveram aulas há muito tempo atrás e não existe aquela reciclagem benéfica. Os métodos são de mil novecentos e antigamente, cheios de naftalina. Eu, por exemplo, tive aulas com uma professora que ao ouvir Ravel dizia que era muito moderno – só queria que eu tocasse Chopin. Se não houver uma reciclagem de professores, o ensino fica estagnado. Um dos problemas é que alguns professores mais novos estudaram com os mais velhos e o ciclo continua...
Por outro lado, muita gente que estudou fora está voltando e isso é bem legal. Pois trazem a experiência da Europa, dos EUA para o Brasil. Mas isso ainda esbarra no tradicionalismo muito forte dos professores antigos, que são normalmente contra mudanças. Esse é um problema sério, mas um dia os professores morrem, e com eles as mentes fechadas. A questão é: quem vai substitui-los?
Que tipos de músicas você costuma ouvir, além da música de concerto?
Jazz, muito jazz. Bossa nova e música brasileira quando posso. No mais tento ouvir de tudo um pouco. Existem até mesmo uns raps interessantes ,se você parar, tirar o preconceito e prestar atenção. Mas escuto mais por curiosidade e aprendizado. Se você me perguntar qual tipo de musica eu sinto prazer em ouvir, te digo um jazz bem tocado. Um “Real Jazz”.
Você acaba de lançar o seu livro de doutorado, que vem sido aguardado com ansiedade aqui no Brasil. Quando haverá versão em português disponível?
Sim, pretendo traduzir o livro para português e arrumar alguém por aí para me ajudar na publicação. Falei com o Marlos e ele achou uma idéia boa (óbvio).
Quais são os seus pianistas prediletos, e quais são os que você
considera de maior destaque atualmente?
Os favoritos são os de sempre... Arrau, Zimmerman, Perahia, Horowitz, Gilels e Gould.
Dos pianistas de agora, gosto do John Nakamatsu, Alexander Korsantyia... muito bons mesmo!
Para ser um bom pianista, é mesmo necessário começar cedo e estudar oito horas diárias?
Não, mas ajuda. Quanto mais tempo você passar estudando, melhor – se você souber como estudar. É melhor passar uma hora de estudo certo do que dois dias estudando sem saber o porquê.
Regência e composição, pretende dedicar-se também, algum dia, a esses campos?
Não. Acho muito difícil compor algo sério. De brincadeira sim, sem problema, mas algo sério, não. Pelo menos por enquanto. Tive umas experiências boas no campo da regência, mas também nada sério.
Quais são as suas atividades de lazer? O que você gosta de fazer no seu tempo livre?
Não tenho muito tempo livre, mas no que tenho gosto mesmo é de dormir até tarde e, sempre que possível, pescar, ir ao cinema.
Você possui também outros projetos literários. Fale sobre eles.
Ah, isso é mais um hobbie. Quero escrever um livro sem maiores pretensões com contos sobre músicos e situações vividas por músicos. Gosto de escrever e de criar situações imaginárias com palavras.
Além de engenharia, música e literatura, quais são outras de suas áreas de interesse, habilidade ou paixões?
Adoro jogar xadrez e pescar. Pianos antigos também me fascinam. Gosto de futebol. Eu “fundei” o departamento de futebol da Universidade de Indiana. Muito legal. Eu organizei o “campeonato” e fui o juiz de todos os jogos. Um sucesso e muitas lembranças boas! Além disso tenho dois sonhos: ter um barco e um papagaio chamado Zico.
__________________
"Muita gente não gosta do Horowitz como pianista, muitos nunca o ouviram, assim como muitos nunca viram Garrincha ou Zizinho jogar futebol. Tudo bem, os tempos mudaram, as interpretações mudaram, o mundo mudou... O que fica é a arte e a história em forma, nesse caso, de um instrumento musical.
E esse instrumento está aqui. Na mesma sala de onde escrevo essas linhas mal escritas.
Por fim sentei-me ao piano, mas não sabia o que tocar, nem se devia tocar alguma coisa. Não queria arruinar esse momento com nenhum acorde de dó maior ou escala. Imaginei Horowitz sentado ao piano, nessa mesma posição que me encontro. Os palcos, os concertos, os recitais, os sons que esse instrumento transportou dos dedos de Horowitz para nossas memórias. Os Cds, os vídeos, as gravacões. As horas de estudo, as sonatas, estudos, concertos, orquestras, regentes, histórias, segredos, emoções, e tudo mais.
Levantei sem tocar uma nota e ainda não sei se deveria voltar ao piano, mas essa emoção de estar 'no lugar' de Horowitz já foi uma experiência impressionante."
[texto escrito por Bernardo Scarambone, quando esteve à frente do piano do legendário pianista Vladimir Horowitz, na loja da Califórnia, Estados Unidos]





















