Mnemosina

Nome: Anderson Paiva
Local: São Paulo, SP, Brazil

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Entrevista: Bernardo Scarambone (berber)

Conheci Bernardo Scarambone freqüentando fóruns de música clássica pela internet. Não o conheço pessoalmente, mas somos velhos companheiros de debates.

Utiliza o pseudônimo de "berber", que nada mais é do que a repetição das primeiras letras do seu primeiro nome. Quem observa suas participações em fórum não imagina que por trás desse apelido singelo e do seu jeito simples, sempre descontraído e bem-humorado, se esconde um dos grandes talentos da nova geração de pianistas do país. Recém doutorado em Houston, Estados Unidos, com tese sobre a obra para piano do compositor brasileiro contemporâneo Marlos Nobre de Almeida, também é responsável pela estréia mundial de uma das composições do referido compositor. Sua tese e suas interpretações prometem trazer muita luz sobre a música de Marlos Nobre. Bernardo Scarambone prestigia, acima de tudo, a música atual e brasileira.

Essa entrevista tem como objetivo divulgar o seu trabalho. Segue, também, um breve resumo da biografia do músico brasileiro.
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Biografia

Bernardo Scarambone nascido no Rio de Janeiro, Brasil, onde começou seus estudos de piano aos 11 anos de idade. Desde então, Dr. Scarambone tem sido considerado um dos mais talentosos e bem-sucedidos pianistas de sua geracão, com um total de 13 prêmios em concursos nacionais e internacionais. Bernardo Scarambone se apresentou em diversas salas de concertos e em master classes e festivais de musica em Brasil, Portugal, Espanha, Franca e EUA.
Ele tocou com varias orquestras importantes: Sinfônica Nacional, OSESP, OSPA, Indiana University Philharmonic Orchestra, Baytown Symphony entre outras. Dr. Scarambone recebeu seu bacharelado da universidade federal do Rio de Janeiro em 1987 e uma bolsa de estudos para o Mestrado em Indiana, onde estudou sobre a supervisão do pianista Alexander Toradze, vencedor do Van Cliburn. Bernardo Scarambone completou seu mestrado em 1999 e no ano seguinte recebeu outra bolsa para fazer o doutorado em Houston (University of Houston). Bernardo Scarambone sempre desenvolveu atividades relacionadas com a musica brasileira e musica latinoamericana, como o Alabama International Festival – BRAZIL”, em Georgia, ou “International Piano Festival” em South Bend, Indiana. Suas apresentações de musica brasileira são sempre aclamadas pelo publico e critica. Bernardo Scarambone completando seu doutorado na University of Houston, em abril desse ano (2006).

Fonte: http://wwwappstc.nhmccd.edu/ehm/music/website/People.html (traduzido da home page de uma universidade onde Bernardo lecionou, em Houston).


Entrevista

Com intermédio de quem você iniciou os seus estudos musicais (houve algum incentivo)? E desde quando descobriu (e começou a apreciar), realmente, a música clássica?

Eu comecei a estudar piano com a dona Judith, professora do colégio. Tínhamos aulas eu e meu irmão, Bruno, na casa dela. Tinha uns oito ou nove anos, mas não considero esse meu inicio com o piano. Ela ensinava que o polegar só poderia tocar o do central, mais nenhuma nota! O dedo indicador era o dedo do ré, e etc. Eu aceitava aquilo, mas nunca entendi o porquê do piano ter mais de dez notas, afinal temos somente dez dedos, e se cada dedo é reservado para uma única nota...
Dali em diante foram umas aulas típicas de piano. Acho que fiquei um ano ou menos tendo aulas e desistimos. Depois de um tempo – eu tinha treze anos – minha mãe me apresentou um “professor de piano” conhecido de minha tia da igreja que ela freqüentava. Aí sim tive um inicio “sério”.
Esse sério em termos, pois eu só estudava mesmo meia hora antes das aulas. Só passei a ver musica como coisa séria depois, mas isso já é outra historia... A primeira vez que eu notei que aquilo que eu tocava era “digno” foi quando eu ouvi um pianista na televisão tocando a sonata fácil de Mozart – a em dó maior, que todo mundo toca. Pensei: “Uau! Eu estou tocando essa música que esse pianista toca! Legal!”

Você possui músicos na família? Quais?

Sim, minha família sempre teve algum tipo de relacionamento com musica.
Meu pai sempre gostou de improvisar ao piano. Ele chegou a fazer parte de uma turma de amigos e conhecidos do Tom Jobim. Minha tia namorava um musico – não sei o nome –, mas o pessoal começou a entrar em drogas e coisas do gênero e meu pai pulou fora. Minha mãe sempre gostou de musica, mas até hoje só sabe “ler a mão direita no piano”. Ela faz parte da associação da orquestra da Pró-Música – Oppm, mas acho que mudou de nome para orquestra Petrobras, ou coisa assim. Meu irmão toca piano e é professor de musica na Alemanha, em Baden-Baden, ensinando crianças. Meu tio-avô (Francisco Scarambone) era o músico famoso da família. “Maestro Scarambone”. Ele acompanhava cantores e tocava piano na Rádio Nacional. Meus avôs tinham uma “banda de música”, onde cada irmão (e eram treze) tocava um instrumento. Saxofone, piano, bateria, violao, etc. Uma zorra! (risos).

Quais eram/são as profissões dos seus pais?

Pai engenheiro civil, mãe fonoaudióloga.

Quando você percebeu que tinha, realmente, talento para a música?

Por ocasião do meu terceiro concurso. No ano em que eu entrei para a Escola de Música, eu fiz três concursos de piano: Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Araçatuba. Tirei terceiro lugar nos três. Aí pensei: “Gostei! Conheci um monte de gente, viajei e ainda tirei prêmio. Vou continuar!”

Quais foram as suas principais realizações e/ou aprendizados antes do bacharelado?

Que estudar é muito importante. No palco, você está tocando para você mesmo, não para o público. Uma vez minha mãe me perguntou: “Bernardo, vale a pena estudar mais de um ano uma musica para receber no máximo três minutos de aplausos?” Eu disse que não estava tocando por aplausos, e sim por mim mesmo. Acho que isso é que é importante.

Enquanto você estudava piano, começou a fazer engenharia, mas parou o curso para se dedicar ao piano. Você iniciou antes a faculdade de piano ou a de engenharia? E quais eram os seus planos e perspectivas para a sua carreira profissional naquele tempo?

Foi o seguinte: na hora do vestibular, eu tinha que escolher entre música e outras coisas. Eu acabei fazendo vestibular de musica para a UFRJ, de engenharia para a PUC e de arquitetura para a Uni-Rio. Pensei: “na que eu passar, eu curso”. O problema é que eu passei nas três! Fiquei então entre música e engenharia. Matriculei-me nas duas, mas tranquei a PUC antes mesmo de ter uma aula. Deixei a vaga “guardada” por um ano. Decidi dar uma chance à música: se em um ano não gostasse, faria engenharia, como meu pai. No final daquele ano, já tinha me decidido pela musica.

Fale um pouco sobre o seu período de bacharelado.

Foi a melhor parte, tratando-se de amizades e festas. Muitos namoros escondidos nas salas de estudo e por trás dos palcos, muitas historias engraçadas. Você não tem nenhuma responsabilidade, né? Está lá para tocar piano, ir a festinhas, etc. Bons tempos que não voltam mais...

Em que ano e com que idade você foi para Indiana com a bolsa de estudos para o mestrado? Você não sabia inglês e não conhecia ninguém nos EUA. Quais foram as suas maiores dificuldades nesse período? E como conseguiu superá-las?

Foi em 1998, com 26 anos. Formei-me em 1994 na UFRJ e fiquei esses quatro anos só tocando piano em concursos, concertos e recitais. Aí me inscrevi na CAPES para a bolsa de estudos. Acabei ganhando a oportunidade – el pagariam tudo, inclusive a passagem de ida e volta. Eu só tinha que decidir para onde ia. Passei o verão na Europa fazendo um festival e música. Acabei aprovado para o Conservatório de Paris, a Escola de Musica da Rainha Sofia, em Madrid e em Indiana. Por alguma razão, o governo brasileiro não aceitou a escola de Madrid e eu tive que decidir entre Paris e Indiana. Pensei: “que decisao “difícil”. Paris, lógico!” Só que eles avisaram: “sem problema, só que você vai ter que provar que fala francês até o final do mês, senão pode desistir da bolsa. Tive que ir para Indiana – e hoje não me arrependo!

Eu só conhecia um amigo meu – Paulo – que estudava piano também em Indiana. Fui com a cara e a coragem –e a bolsa de estudos, é claro... Mas o inglês era primário mesmo, não sabia falar nada! A primeira “aula” de escrita básica – sim, tive essas aulas chatas também – foi um martírio! A professora deu a aula inteira em inglês! – óbvio – e no final, minha cabeça doía... Dali em diante, fiquei horas lendo o dicionário e ouvindo radio. Mas ainda assim levei mais ou menos um mês para conseguir entender realmente o que estava se passando. Nas aulas de piano a coisa era mais fácil, o vocabulário musical é mais ou menos internacional – piano, crescendo, etc. E o que eu não entendia, o professor mostrava no piano.

Fale um pouco sobre sua tese de mestrado (período e conteúdo).

O mestrado foi muito bom porque fiquei em contato com pianistas de verdade. Aqueles que fazem turnês pelo mundo tocando com orquestras de verdade. As aulas eram incríveis. Logo na primeira o professor me disse: “você vai tocar o concerto de Brahms. Semana que vem me traga os dois primeiros movimentos...” E ai de você se não trouxesse... Foram dois anos aprendendo a arte de se apresentar em publico e aprender músicas muito rapidamente. Esse mestrado não teve tese – graças a Deus! – mas muitos concertos e recitais. As aulas teóricas foram menos puxadas, só me lembro mesmo das aulas de pedagogia, onde tive que aprender todas as regras de trinados e mordentes do barroco e rococó, e umas aulas de história da musica, no mais ficava mesmo nos “practice rooms”, estudando piano.

Quais foram as suas principais atividades profissionais e acadêmicas nos Estados Unidos?

Toquei muito por aqui. Indiana, Chicago, Houston, Michigan e Alabama. Com algumas orquestras e muitos recitais. Dei umas aulas em um “master classes”, alunos particulares direto, aulas na Universidad de Houston e num colégio/universidade, onde eu era o professor de música, piano, teoria, etc. Eu diria que em Indiana eu toquei mais, e em Houston eu ensinei mais.

O que mais você valoriza (ou prioriza) no seu repertório?

Eu adoro Beethoven e Bach. Mas priorizo mesmo música contemporânea (não só brasileira). Acho que tem tanta gente tocando Chopin, Liszt, Rach, etc. E que muito dificilmente alguém tocará melhor do que um Pollini, Arrau, ou Gileles. Esse repertório já tem e teve seus “intérpretes ideais”. O repertório contemporâneo ainda não. E esse é o caminho a ser seguido, se alguém quer se destacar de alguma maneira. Imagine que você vai a uma loja de CDs querendo uma Sonata de Beethoven. Existem mais de vinte opções. Mas uma música de Cowell, ou Ligeti, ou mesmo Marlos Nobre, você não encontra facilmente.

Fale um pouco sobre a sua tese de doutorado (o período e conteúdo).

A tese de doutorado foi sobre a música para piano de Marlos Nobre. Fiz um monte de entrevistas com ele através de emails, e descobri muitas informações erradas sobre a carreira dele. Muitos artigos falavam besteira – desde chamá-lo de “Marcos Nobre” até mesmo plágio. Analisei cinco obras para piano. Entre elas, uma que eu fiz a estréia mundial, a “Sonatina”. Acho um trabalho importante para valorizar o que é nosso e ao mesmo tempo o repertório contemporâneo, corrigindo muitos erros na biografia do Marlos.

Fale um pouco sobre as suas participações em concursos.

O primeiro concurso de piano foi em Juiz de Fora – não tinha a mínima idéia do que iria acontecer, e sinceramente, nem me importava. Fui mais na festa, viajando, conhecendo pessoas, etc. Tirei o terceiro lugar. Nnem mesmo minha professora esperava nada assim. Depois fiz mais dois: um no Rio e outro em Araçatuba e tirei mais dois terceiros lugares. Conheci muita gente. No ano seguinte, fiz dois – acho que em São Paulo – e ganhei primeiro lugar. Depois disso, fiz mais um monte de concursos – ao todo treze ou quatorze – e ganhei prêmios em todos. O mais engraçado foi uma torta de chocolate como primeiro lugar! O primeiro internacional foi em Seattle. Mas só fui até a semifinal.

Quando você começou a trabalhar na loja de pianos em que atua atualmente? Como é ser um representante da Steinway? (fale-nos um pouco sobre esse seu lado comercial).

Isso foi em 2001, eu estudando no doutorado. Eu acompanhava um coro de crianças, e ganhava um dinheirinho que ajudava. Aí o acompanhador “oficial” voltou de viagem e eu fiquei sem emprego. Uma professora da universidade me disse que uma loja de pianos estava procurando alguém para tocar e demonstrar os pianos. Eu pensei “Oba, um bico!” Fui lá e me contrataram. Depois de um ano, eu vendi tantos pianos que eles quiseram me bancar o visto de trabalho. Depois me ofereceram uma posição na Califórnia que eu aceitei. Trabalhar com Steinways é muito legal, você conhece os pianistas que tocam pelo mundo, além de ter os melhores pianos do mundo para estudar depois da loja fechar. Aliás, se não fosse esse emprego, não teria o “piano da velhinha” em casa, né?

Como foi, mesmo a história do "piano da velhinha"?

A história do piano da velhinha foi assim: Eu trabalhava na loja de Houston, e um belo dia chegou um piano de cauda todo trabalhado à mão, bonito mesmo. Fui até onde os afinadores trabalham para ver o piano e vi que ele não tinha as cordas cruzadas, e tinha menos teclas do que os pianos atuais. Pelo estilo, dava para ver que o piano era antigo. Pesquisei um pouco o nome e vi que o piano tinha sido feito em 1840! Em Viena... Perguntei para o gerente o que eles fariam com o piano e ele disse que iriam devolver à dona, porque ninguém iria comprar um piano tão velho. “Tudo bem”, pensei. Mas acontece que quando eles tentaram contatar a dona, a velhinha tinha morrido! E o piano ficou lá na loja esperando algum familiar ir buscá-lo. Depois de seis meses, ou mais, o gerente mandou limpar toda aquela área e expandir o salão de vendas. Ele disse para jogarem o piano no lixo! Eu telefonei para museus, universidades e tentei argumentar que o piano era da época em que Brahms e Liszt estavam vivos! Um piano de cauda daqueles deve ter estado em uma casa de gente rica e famosa daquele tempo, em Viena... Ninguém me ouviu, e o gerente me disse: “Temos que limpar essa área, Você quer o piano? Leve-o daqui!” No mesmo dia eu aluguei um caminhão por vinte dólares e levei o piano para casa! Em casa, removi a ação do piano com as teclas. Atras das teclas achei varias pétalas de rosas ressecadas! Uma surpresa bem legal. O piano ainda está em Houston, num depósito, junto com as minhas coisas. Tive que deixá-lo por lá quando me mudei para a Califórnia, mas ainda vou colocar esse piano em forma e tocar um recital com obras de Liszt e Brahms nele. Um piano desses em perfeito estado de conservação vale uns quarenta mil dólares! Essa é a historia do piano da velhinha...

Com quais dos principais nomes da música nacional e internacional (músicos, maestros, etc.) você já teve contato, ou teve a oportunidade de trabalhar? Cite alguns nomes.

Vladimir Viardo, Alexander Toradze, Korsantyia, John Nakamatsu, Zimmerman, Kirov Orchestra, Gergiev (o maestro) – aliás, jogamos futebol juntos. É muito “fominha”. (risos)

Você atua na área de concerto, comercial, acadêmica, e costuma participar ativamente de fóruns de música clássica, na internet. Como você consegue tempo para tudo isso?

Nao sei! (risos)

Você já tocou com a OSESP? Como foi (e com qual maestro)?

Com a OSESP foi em 1992. Toquei o concerto de Prokofieff, depois de ganhar o concurso da OSESP. Também ganhei o concurso da OSPA, que era da mesma época. O Eleazar de Carvalho era o maestro das duas orquestras e elas tinham os concursos para solistas ao mesmo tempo. Então fui a São Paulo e depois a Porto Alegre. Com a OSESP eu toquei com o Roberto Tibiriçá, e com a OSPA acabei tocando com um regente argentino, depois de um ensaio com o próprio Eleazar.

Você acaba de concluir sua tese de doutorado. Quais são agora os seus planos para o futuro? Pretende continuar trabalhando na área comercial e morando nos Estados Unidos?

Quero publicar uns artigos em revistas especializadas de música, dar muitas aulas, e continuar tocando e fazendo pesquisas.

E o jazz?

Ah, o Jazz... O jazz bem tocado é maravilhoso. Não consigo improvisar nada de valor. Adoraria poder sentar ao piano e tocar, improvisar... Mas nã consigo. Jazz para mim é infelizmente somente algo que gosto de escutar.

Você sente saudades do Brasil? Pretende voltar?

Claro! Aqui não tem futebol, nem guaraná. Sinto muitas saudades: catupiry, coxinha de galinha, praia, chopp... Não sei se volto tão cedo. Meu primeiro sonho era fundar uma escola de música no Brasil, onde não houvesse nenhuma politicagem – utópico, eu sei... – e para que os alunos de musica não precisassem sair do Brasil como eu saí para receberem uma formação boa.

O que você tem a dizer sobre o cenário atual da área musical profissional brasileira? Como você vê as perspectivas nesse campo, em nosso país, morando nos Estados Unidos? É possível se formar e atuar como músico sem ir para o exterior? Afinal, dá para viver de música no Brasil?

Acho difícil viver de música no Brasil. Possível sim, mas difícil. Se você toca um instrumento de orquestra, e conhece as pessoas certas, pode arrumar um emprego em uma ou duas orquestras. Com o piano é mais difícil, pois você só tem a opção de dar aulas ou tocar. Como para tocar você depende muito do QI (quem indica), e dar aulas não é sempre uma fonte de renda segura, já viu... A saída do Brasil é válida para alguém que quer sair da mentalidade brasileira. Digo isso sem nenhum preconceito, mas na verdade os professores atuais tiveram aulas há muito tempo atrás e não existe aquela reciclagem benéfica. Os métodos são de mil novecentos e antigamente, cheios de naftalina. Eu, por exemplo, tive aulas com uma professora que ao ouvir Ravel dizia que era muito moderno – só queria que eu tocasse Chopin. Se não houver uma reciclagem de professores, o ensino fica estagnado. Um dos problemas é que alguns professores mais novos estudaram com os mais velhos e o ciclo continua...
Por outro lado, muita gente que estudou fora está voltando e isso é bem legal. Pois trazem a experiência da Europa, dos EUA para o Brasil. Mas isso ainda esbarra no tradicionalismo muito forte dos professores antigos, que são normalmente contra mudanças. Esse é um problema sério, mas um dia os professores morrem, e com eles as mentes fechadas. A questão é: quem vai substitui-los?

Que tipos de músicas você costuma ouvir, além da música de concerto?

Jazz, muito jazz. Bossa nova e música brasileira quando posso. No mais tento ouvir de tudo um pouco. Existem até mesmo uns raps interessantes ,se você parar, tirar o preconceito e prestar atenção. Mas escuto mais por curiosidade e aprendizado. Se você me perguntar qual tipo de musica eu sinto prazer em ouvir, te digo um jazz bem tocado. Um “Real Jazz”.


Você acaba de lançar o seu livro de doutorado, que vem sido aguardado com ansiedade aqui no Brasil. Quando haverá versão em português disponível?

Sim, pretendo traduzir o livro para português e arrumar alguém por aí para me ajudar na publicação. Falei com o Marlos e ele achou uma idéia boa (óbvio).

Quais são os seus pianistas prediletos, e quais são os que você
considera de maior destaque atualmente?


Os favoritos são os de sempre... Arrau, Zimmerman, Perahia, Horowitz, Gilels e Gould.
Dos pianistas de agora, gosto do John Nakamatsu, Alexander Korsantyia... muito bons mesmo!

Para ser um bom pianista, é mesmo necessário começar cedo e estudar oito horas diárias?

Não, mas ajuda. Quanto mais tempo você passar estudando, melhor – se você souber como estudar. É melhor passar uma hora de estudo certo do que dois dias estudando sem saber o porquê.

Regência e composição, pretende dedicar-se também, algum dia, a esses campos?

Não. Acho muito difícil compor algo sério. De brincadeira sim, sem problema, mas algo sério, não. Pelo menos por enquanto. Tive umas experiências boas no campo da regência, mas também nada sério.

Quais são as suas atividades de lazer? O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

Não tenho muito tempo livre, mas no que tenho gosto mesmo é de dormir até tarde e, sempre que possível, pescar, ir ao cinema.

Você possui também outros projetos literários. Fale sobre eles.

Ah, isso é mais um hobbie. Quero escrever um livro sem maiores pretensões com contos sobre músicos e situações vividas por músicos. Gosto de escrever e de criar situações imaginárias com palavras.

Além de engenharia, música e literatura, quais são outras de suas áreas de interesse, habilidade ou paixões?

Adoro jogar xadrez e pescar. Pianos antigos também me fascinam. Gosto de futebol. Eu “fundei” o departamento de futebol da Universidade de Indiana. Muito legal. Eu organizei o “campeonato” e fui o juiz de todos os jogos. Um sucesso e muitas lembranças boas! Além disso tenho dois sonhos: ter um barco e um papagaio chamado Zico.
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"Muita gente não gosta do Horowitz como pianista, muitos nunca o ouviram, assim como muitos nunca viram Garrincha ou Zizinho jogar futebol. Tudo bem, os tempos mudaram, as interpretações mudaram, o mundo mudou... O que fica é a arte e a história em forma, nesse caso, de um instrumento musical.

E esse instrumento está aqui. Na mesma sala de onde escrevo essas linhas mal escritas.

Por fim sentei-me ao piano, mas não sabia o que tocar, nem se devia tocar alguma coisa. Não queria arruinar esse momento com nenhum acorde de dó maior ou escala. Imaginei Horowitz sentado ao piano, nessa mesma posição que me encontro. Os palcos, os concertos, os recitais, os sons que esse instrumento transportou dos dedos de Horowitz para nossas memórias. Os Cds, os vídeos, as gravacões. As horas de estudo, as sonatas, estudos, concertos, orquestras, regentes, histórias, segredos, emoções, e tudo mais.

Levantei sem tocar uma nota e ainda não sei se deveria voltar ao piano, mas essa emoção de estar 'no lugar' de Horowitz já foi uma experiência impressionante."


[texto escrito por Bernardo Scarambone, quando esteve à frente do piano do legendário pianista Vladimir Horowitz, na loja da Califórnia, Estados Unidos]

Sábado, Novembro 25, 2006

O primeiro negro a.....

Hoje tivemos a confirmação de que o primeiro negro irá participar de um campeonato de Fórmula 1 no ano que vem.
O britânico Lewis Hamilton apareceu em jornais de todo o mundo, que anunciaram o fato histórico.

Em 1983 foi a vez de Guion Guy Bluford, o primeiro negro norteamericano no espaço, ganhar espaço nos jornais.
No Brasil, Luiz Jose’ da Cunha foi o primeiro preso político negro da nossa história.

“Fatos históricos” como esses povoam e povoarão as páginas de jornais do mundo inteiro. Existem organizações, associações e sociedades criadas com o intuito de preserver a memória do negro, assim como combater o racismo no Brasil e no mundo.

O Troféu Raça Negra é um prêmio anual que “reconhece, premia e valoriza o talento do negro brasileiro.”

BET ou Blak Entertainment Television é um canal de TV a cabo destinado exclusivamente ao público negro americano.

Associação Internacional da Música Negra Americana (International Association of Afrian-American Music - IAAAM) foca suas atividades na música de compositors e intérpretes negros nos Estados Unidos.

Existe até mesmo uma Associação Nacional dos Mergulhadores Negros (National Association of Black Scuba Divers - NABS).

Enquanto a proposta dessas organizações e jornais é nobre, esse tipo de atitude só aumenta ainda mais discriminação racial. Esse tipo de atividade é fadado ao fracasso.

Calma, calma, antes de me chamarem de racista, vamos refletir um pouco.

Enquanto houverem divisões entre as pessoas, o problema do preconceito, do racismo irá existir. Sempre. Enquanto organizações de “apoio a memória negra” existirem ou notícias como “Lula nomeou o primeiro negro para o tribunal supremo Brasileiro” forem manchetes de jornal, as divisões serão mantidas. Cada vez que um negro fizer algo inédito, repórteres estarão à espreita, prestes a anunciar o “primeiro negro a…”

Um dia leremos nos jornais que pela primeira vez na história o Brasil elegeu um presidente negro – E isso será uma noticia ruim!

Por que não ouvimos notícias como “pela primeira vez na história o Brasil elegeu um mutilado para presidente?” Ou por que não criarmos uma Associação Nacional das Pessoas com Menos de um Metro e Meio? Engraçado, né? Pois não achamos graça nenhuma em declarar um feriado nacional do dia da Consciência Negra. Voces conseguem ver o absurdo dessas situações? Somos ou não iguais? Alguem um dia disse: Somos iguais, mas alguns são mais iguais que outros.

Vejam bem – Enquanto continuarmos a reforçar as divisões raciais (aliás, existem raças diferentes?) seja por meio de notícias, associações, ou canais de televisão, estaremos alimentando o preconceito. Se somos todos iguais, então para que aceitamos grupos que acentuam diferenças? Para que criamos feriados e organizações que priorizam a diferenciam umas pessoas das outras?

Enquanto existirem grupos como Afrobras e “Dia da Consciência Negra” o racismo estará sendo alimentado.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

O fantástico mundo do saxofone: sopranino, soprillo, sax baixo, contrabaixo, subcontrabaixo/tubax

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Conheça o magnífico sax baixo e toda a família do saxofone

Você conhece o saxofone? Tem certeza?

É um instrumento popular? Clássico? De jazz?

Na realidade, o saxofone é um instrumento bastante conhecido, mas, ao mesmo tempo, desconhecido. Embora muitas pessoas já ouviram o som do saxofone na música popular, e até mesmo no jazz, poucas pessoas ouviram um concerto para saxofone e orquestra, por exemplo. Muitos conhecem Kenny G e já ouviram falar de Charlie Parker e John Coltrane, mas as múltiplas das possibilidades desse versátil e magnífico instrumento permanecem para muitos um mistério.

Eu, como clarinetista amador evangélico, ouvinte principalmente de música clássica e principiante em relação ao jazz, posso dizer que o sax é adorado no mundo dos jazzistas, mas sofre um certo preconceito por parte dos ouvintes de música erudita. Na realidade o saxofone é considerado por muitos um instrumento popular, e sempre esteve à margem do repertório clássico e, pelo que consta, também por razões políticas. E esse instrumento, de timbre também extremamente clássico, além de ter sido aproveitado por Ravel (um dos mestres da orquestração) em seu Bolero, por exemplo (em que utiliza dois saxofones: o soprano e o tenor), foi também admirado por ninguém menos do que Hector Berlioz, outro mestre da orquestração da história da música clássica ocidental.

Eis aqui os saxofones mais conhecidos, que grande parte dos ouvintes de música instrumental e clássica, músicos amadores, semi-profissionais e evangélicos conhecem, já viram e ouviram, dos quais sempre se ouve falar:


Da esquerda para a direita: sax contralto em mib, sax tenor em sib, sax barítono em mib e sax soprano em sib. O soprano é o menor e mais agudo dos quatro, que são os mais conhecidos da família. O quarteto de saxofones da foto acima foi construído na oficina de Adolph Sax em 1860. O sax alto é o mais conhecido. O barítono, menos conhecido, mas mesmo assim, não é nenhum anônimo.

Para ouvir o sax reto em sib, clique aqui.
Para ouvir o sax alto em mib, clique aqui.
Para ouvir o sax tenor em sib, clique aqui.
Para ouvir o sax barítono em mib, clique aqui.



À esquerda, meu irmão Willian, sax alto
À direita, eu e o sax barítono

Porém... o que pouca gente sabe é que o primeiro dos saxofones construídos foi o... sax baixo! Sim, é ele, o sax baixo , o “pai dos saxofones”. Afinado em sib, é maior e mais grave do que o barítono, soando uma oitava abaixo do sax tenor (sua nota mais grave é o sib 0 grave (equivalente ao sol# uma OITAVA ABAIXO da corda sol do violoncelo!).

Considerado por muitos um dos poucos instrumentos “inventados”, ou seja, que não teve antecessores, e sendo um instrumento “jovem”, o saxofone provavelmente foi criado a partir do clarinete baixo (clarone) – que vinha sendo aperfeiçoado por Adolf Sax – e do oficleide , predecessor da Tuba, família dos saxhorn (também patentiados por Adolf Sax). A adição da boquilha da clarineta baixo ao oficleide teria gerado o sax-baixo.




Para ouvir o oficleide, clique aqui.






Para ouvir o clarinete baixo (clarone), clique aqui.


A primeira vez que o vi (o sax-baixo) foi quando estive na Bahia, em um ensaio da igreja que eu freqüentava, a Congregação Cristã no Brasil (atualmente freqüento a Batista). Depois tive a oportunidade de ouvir esse instrumento mais de perto na orquestra da igreja em meu bairro, e fiquei encantado com a sua sonoridade, potência e profundeza dos timbre graves. Era um sax-baixo ampliado até o Fá# 0, que é, na prática, nota MAIS GRAVE da Tuba (afinada também em sib). De som muito mais grave e poderoso (e menos melodioso) do que o do sax barítono, o sax-baixo é de timbre mais grave que a tuba, e suas notas soam tão graves quanto aquelas emitidas por uma contrabaixo (da família dos violinos) ou um por um contrafagote. E é extremamente belo também no registro agudo. O seu tamanho impressiona. A sua campana é do tamanho da campana do bombardino – mas, em comprimento, o instrumento é maior do que a tuba.

Veja, agora, o sax baixo:







Para ouvir o sax baixo, clique aqui.


Compare, agora, o tamanho do sax baixo com o do sax barítono:



O sax baixo é tão raro que é pouco conhecido até mesmo entre músicos profissionais. O saxofonista Flávio Corilow, por exemplo, dedica-se ao sax desde 1983 e começou a atuar profissionalmente como músico em 1989. Nesses 16 anos de estrada e até recentemente, entretanto, jamais havia visto um sax baixo ao vivo e em cores.

Esse é um instrumento esquecido. Praticamente não aparece na orquestra sinfônica. Tem sido utilizado no jazz. No Brasil, utilizado em algumas formações militares e do Exército e, principalmente em orquestras sacras, começa a aparecer nas orquestras da Congregação Cristã no Brasil. Edson Tavares Guarnieri, ex-metalúrgico, membro da CCB, vem construindo esses raros instrumentos desde 1999 e, desde então, esse instrumento está em ascensão no Brasil. Há sete anos havia apenas 46 desses instrumentos no país. Hoje, já existem outros 31 saxofones baixos espalhados por vários estados brasileiros, todos fabricados da empresa criada pelo ex-metalúrgico, a Lopes Instrumentos Musicais, localizada no Parque Santa Bárbara, em Campinas.

Richard Kennedy, construtor e músico amador, também é membro da Congregação Cristã do Brasil e, durante 18 anos, tocou sax alto. Há cerca de dois anos, comprou um sax baixo da Lopes Instrumentos Musicais e desde então, dedica-se ao novo instrumento. Ao tentar matricular-se no Conservatório de Tatuí, um dos mais respeitados do Brasil, Kennedy foi admitido sem ter que passar sequer pelo processo de avaliação exigido pelo Conservatório! “É que eles nunca tinham visto um sax baixo antes e estão muito interessados em desenvolver uma metodologia própria de ensino para este instrumento”, afirma o músico. “De acordo com eles, desde a inauguração do Conservatório, esta é a primeira vez que aparece um aluno de sax baixo por lá”.

E, acreditem, há um saxofone ainda maior e mais grave do que o sax baixo!: o sax contrabaixo. Em mib, soa uma oitava abaixo do sax barítono.

O saxofone foi patenteado por Adolph Sax em 1846 incluindo 14 variações: Sopranino em mib, Sopranino em fá, Soprano em sib, Soprano em dó, Alto em Mib, contralto em fá, tenor em Sib, tenor em dó, barítono em mib, barítono em fá, baixo em sib, baixo em dó, contra-baixo em mib e contrabaixo em fá.



Soprano em Sib reto, soprano em dó e sopranino em mib reto.

Para ouvir o sax soprano reto em sib, clique aqui.
Para ouvir o sax soprano reto em dó, clique aqui.
Para ouvir o sax sopranino reto em mib, clique aqui.

Porém, Adolf Sax nunca ficou rico. Devido ao seu sucesso, os concorrentes, de olho nos lucros, lançaram uma tremenda campanha contra ele. Entre outros golpes, acusaram-no de ter roubado a idéia do saxofone, subornaram músicos para boicotar os seus instrumentos e fizeram com que os compositores deixassem o sax à margem das salas de concerto. Adolph sobreviveu aos ataques até que, em 1870, sua patente expirou e qualquer um pôde fazer saxofones. Sua fábrica então faliu. Duas vezes ele declarou bancarrota em 1856 e 1873. Muitos processos foram movidos contra ele e passou grande parte da sua vida em batalhas judiciais, gastando assim todo o seu dinheiro. Aos oitenta anos de idade e falido, três compositores se sensibilizaram (Emmanuel Chabrier, Jules Massenet e Camile São-Saens) e solicitaram ao Ministro francês de belas artes que lhe ajudasse. Uma pequena pensão foi dada, a qual lhe garantiu uma ajuda nos seus últimos anos de vida.

"É o som mais lindo que eu já ouvi!” (Gioacchino Rossini, ao ouvir o saxofone pela primeira vez em 1848)

"Melhor que qualquer outro instrumento, o saxofone é capaz de modificar seu som a fim de lhe dar as qualidades convenientes, e de lhe conservar a igualdade perfeita em toda sua extensão. Eu o fiz em cobre, e em forma de cone parabólico. O saxofone tem boquilha com palheta simples como embocadura, uma digitação próxima à da flauta e à do clarinete, e podemos, se quisermos, colocar-lhe todas as digitações possíveis" (Adolf Sax)



De cima para baixo: sopranino curvo em mib, sopranino reto em mib, soprano reto em dó e soprano reto em sib.

Para ouvir o sax sopranino curvo em mib, clique aqui.


Veja, agora, o sax contrabaixo!




Assustou-se?

Esse gigante é o saxofone contrabaixo em sib, aquele que soa uma oitava abaixo do sax barítono. Esse instrumento é muito raro.

Para ouvir o sax contrabaixo, clique aqui.



Sax-baixo (à direita) e sax-contrabaixo (à esquerda).




Sax contrabaixo em Mib e sax soprano curvo em sib.


Veja agora um saxofone menor do que o sopranino em mib:


Esse é o Sax soprillo , o sax-picollo em sib, uma oitava abaixa do sax soprano em sib!

Para ouvir o sax soprillo (picollo) em sib, clique aqui.


E há, finalmente, o Sax subcontrabaixo em sib, também também conhecido como Tubax !!! Soa uma oitava abaixo do sax baixo!!! Porém, menor. O tubo é maior, porém enrolado. Seu som é extremamente poderoso e profundo. Há também tubax’s que possuem a mesma tessitura do sax contrabaixo, também em mib, sendo, porém, menores em volume. Mas veja o poderoso sax subcontrabaixo em sib: o mais grave e profundo de todos os saxes:



O temível Tubax, versão moderna do sax subcontrabaixo que tinha sido projetado por Adolf Sax.

Para ouvir o sax subcontrabaixo (tubax) em sib, clique aqui.


Tubax em sib e tubax em mib.





Saxofone soprano em sib reto e sax soprillo picollo em sib, uma oitava acima.




Contraste: sax contrabaixo em mib e sax sopranino em mib




Sax subcontrabaixo (tubax) em sib e um radical modelo de Tubax de madeira com palheta-dupla e dedilhado de fagote (um novo, redesenhado e radical contrafagote improvisado).


Ouça mais alguns arquivos:

Sax barítono (em mib) - clique aqui.
Sax baixo (em sib) - clique aqui.
Sax baixo (em sib) - clique aqui.
Sax contrabaixo (em mib) - clique aqui.


Para ouvir e ver mais demonstrações da família do sax, entre no site de Jay C. Easton , de onde aproveitei a maioria dessas imagens e sons. Há variados pequenos arquivos em mp3 gratuitos com demonstrações dos mais variados tipos de saxofones, com muitas imagens e informações. Pesquise bastante no site, e você encontrará uma série de arquivos. Jay C. Easton é multi-instrumentista, especialista na família do saxofone, e executa todos eles. O sax barítono, o “cello” dos saxofone, que aproxima-se também da voz humana, é o saxofone preferido de Easton. Ele possui diversas gravações com esse instrumento, e com os mais variados e inusitados tipos de saxes.


Uma orquestra completa de saxofones.




Do maior para o menor: Contrabaixo em mib, Baixo em sib, Barítono em mib, Tenor em sib, Tenor em dó, Alto em mib, Mezzo-soprano em fá, Soprano em sib, Soprano em dó e Sopranino em mib.


Veja, abaixo, o link para um arquivo em áudio da página de Easton, que acrescenta ainda o piccolo em sib e o subcontraixo (tubax) em sib ao retrato acima, reproduzindo uma orquestra completa com todos os saxofones. É uma linda reprodução de Wachet Auf Hartley , de J. S. Bach. A primeira seção é tocado pelo sax soprano em dó, sax soprano curvo em sib, mezzo-soprano em fá, alto em mib, tenor em dó, barítono em mib e baixo em sib. A segunda seção adiciona o sax piccolo (soprillo em sib), dois sopraninos em mib, e saxofones contrabaixo em mib e subcontrabaixo (tubax) em sib, produzindo uma orquestra com maravilhoso efeito de órgão de tubos, soando em conjunto com uma abrangência de quase sete oitavas. Todos os instrumentos foram tocados por Jay Easton.

Para ouvir a orquestra completa de saxofones, clique aqui.

***

Antonie Joseph, conhecido como Adolphe Sax, morreu no dia 4 de Fevereiro de 1894 com 80 anos de idade.
_________________
"Nenhum instrumento que conheço possui essa estranha sonoridade situada no limite do silêncio." ( Hector Berlioz)

Referências bibliográficas:
http://www.musicaeadoracao.com.br/tecnicos/instrumentos/historia_saxofone.htm
http://www.cpopular.com.br/metropole/conteudo/mostra_noticia.asp?noticia=1396055&area=2230&authent=74298AF8AF6742751B8BCAAE554347
http://explicasax.com.br/forum/
http://www.jayeaston.com/

Segunda-feira, Outubro 30, 2006

O erro de FHC

Eis o maior erro de FHC: ter permitido, de alguma forma, que o que ele tenha deixado de fazer permanecesse uma lacuna passível de ser urdidamente aproveitada e preenchida pelo populismo oportunista. Foi a sua manutenção da imagem de “intelectual das elites” que ocasionou a posterior insurreição da antípoda figura do “defensor dos pobres”. Esse nicho possibilitou a criação do simulacro de Robin Hood – “aquele que tira dos ricos, e dá aos pobres” –, e o PT, astutamente, se transformou de “Partido dos Trabalhadores” no “Partido dos Miseráveis”.

Para esse risco – e tática sempre eficaz – tenho apontado, sempre, em meus textos no Mnemosina. “Não se fie na exclusividade da Benevolência. Ela não é privilégio dos retos. O corrompido também a possui.” Observem uma ironia do Partido dos Trabalhadores: foi justamente esse partido que transformou as medidas compensatórias do governo FHC em máquina assistencialista. Essa “cultura da miséria” não quer investir no trabalho, mas compactuar com o desempregado (ou sub-empregado) pela sinecura, tornando-o, assim, cúmplice-dependente e sem condições de crescer. É uma forma de permanecer no poder. Cumpre lembrar que uma das “propostas do programa de governo” do PT de Lula é justamente trazer a Copa do Mundo para o Brasil em 2014. “Dê pão e circo ao povo, e ele se esquecerá dos problemas”. É uma manobra engenhosa e, infelizmente, ilude até alguns dos mais informados.

Fernando Henrique Cardoso e o PSDB possuem sua parcela de culpa pela situação lastimável em que nos encontramos. O atual governo foi reeleito com ampla maioria, mesmo após todos os crimes e escândalos que envolveram nomes como José Dirceu, José Genuino, Delúbio Soares, Jorge Lorenzetti, Ricardo Berzoini e muitos outros homens fortes e amigos íntimos de Lula, do terceiro andar do Planalto. Como pode, um governo que se une a Evo Morales em detrimento dos interesses do país, que faz apologia a Fidel Castro, que se envolve em denúncias graves como a do assassinato do prefeito de Santo André, que comprovadamente se une à própria organização do narcotráfico colombiana (as FARC) em prol de interesses nebulosos, que se impõe ao Legislativo por meio de compra de deputados, e que faz acordo com mafiosos incriminados do porte de Darci e Luiz Antônio Vedoin para acusar ilicitamente o candidato da oposição, como pode um governo como esse ser reeleito? Creio que só a História tornará mais clara essa questão, e só futuramente será possível compreendê-la. Mas o governo anterior de FHC também possui, inegavelmente, responsabilidade pela situação escabrosa que hoje se afigura. Perdeu muitas oportunidades, quando poderia ter investido mais nas causas sociais do nosso território. Manteve-se distante das classes baixas da sociedade, e se ateve às elites. Em oito anos, criou uma atmosfera de desencanto no país, levando-o à falsa esperança, à ilusão e ao engano. E se hoje a maior parcela do país dorme, apática e distante, iludida por imagens plácidas de um “sonho perfeito”, é porque a realidade não se mostrou mais eficaz. O PSDB, ao deixar de investir nas causas sociais mais urgentes do povo, e ao manter a imagem distante de “amigo dos ricos”, tornou-se cúmplice da cúpula que depois, baseada no assistencialismo barato, assaltaria o poder.

Penso que Fernando Henrique, como estadista, deveria assumir essa parte de responsabilidade pela atual conjuntura e danos ao país. Ele, que escreveu a carta ao(s eleitores do) PDSB, deveria também reconhecer publicamente esse lamentável engano, que tomou proporções gigantescas e levou à triste ilusão de todo um povo. Penso que Fernando Henrique deveria se retratar com a sociedade. Ele deve desculpas e explicações aos brasileiros. E isso não se faz com arrogância, mas com humildade. A carta agora deveria ser endereçada não só aos seus eleitores, ou ao seu partido, mas a todo Brasil, e aos próprios eleitores de Lula. Em forma de manifesto e pronunciamento, seria uma maneira de fazer as pazes com a sociedade, para o bem do país. Somos responsáveis não somente pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer. E a negligência social foi o maior erro de FHC: permitiu o logro de uma falsa esperança, de modo que o mito-Lula que hoje subsiste é, em parte, criação do próprio Fernando Henrique Cardoso.

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

O Voto Nulo da Mamãe

Já que o assunto em pauta é política, vamos conversar um pouco sobre ética. Pode parecer estranho, pois afinal ética e política não se misturam com muita frequência no Brasil, mas podemos tentar mesmo assim.

Vamos falar sobre etica, mas não sobre a ética dos políticos que querem se eleger ou reeleger. Essa palavrinha já foi sumariamente retirada de cena anos atrás. Quero falar sobre a ética individual do cidadão na época de eleições.

Ética é quando sabemos o qual a atitude correta a ser tomada, mesmo que ela não nos beneficie. E mais ainda, ser “ético” é tomar essa atitude, doa a quem doer.

Ética é moral, é fazer o correto. Ser ético consigo mesmo é uma das atitudes mais importantes que uma pessoa pode tomar. É ouvir a voz interna da sua consciência, e segui-la.

Em tempos de política, somos bombardeados por todos os lados com acusações, documentos, palavras, etc. Até eu, que vivo nos Estados Unidos recebo diariamente mensagens sobre os nossos políticos ai do Brasil.

A tática interessante nessa história toda de eleições é a famosa tática que ensina que o ataque é a melhor defesa. “Fulano roubou muito dinheiro, não vote nele.” “Fulano não tem experiência na vida pública, não vote nele.”

Já repararam que cada candidato gasta mais tempo atacando o oponente do que exaltando suas próprias qualidades? Já repararam que 99.9% de todos os emails que recebemos falam mal de um ou de outro candidato? Já perceberam que sempre “votamos contra” e nunca “a favor”?

Onde estão os emails de apoio? Onde estão os emails com propostas positivas?

Essa é a politica do medo.

Os candidatos (e seus seguidores) querem instigar o medo do eleitor, querem assustar o eleitor,e com isso ganhar votos.

Quantas vezes já ouvimos a frase: “Meu candidato ideal não vai ganhar mesmo, então eu vou votar no fulano para que cicrano não ganhe.” Ou ainda “Não gosto de nenhum deles, mas dos males o menor, então vou votar nesse candidato.”

O medo de errar e votar na pessoa errada toma o lugar da ética nas cabecas dos eleitores na hora de apertar o botão e confirmar o voto.

Minha mãe vota nulo há anos. Já foi muito criticada por amigos e familiares por essa opção. Dizem que assim ela não tem nenhuma voz no cenário político. Dizem que ela joga o voto fora, que ela deveria escolher alguem, mesmo que seja o “menos pior”. Utilizam a politica do medo.
O argumento dela é simples e inatacável: “Não gosto de nenhum deles, portanto não voto em nenhum deles.”

No dia de votar, só peço a todos que não se deixem influenciar pelas propagandas do medo. Não votem contra o Lula, ou contra o Alkmin. Sejam éticos, votem a favor de alguem.Mesmo que isso signifique a derrota de seu candidato. Mesmo que isso signifique votar nulo.

Sejamos Éticos e não Políticos!

“São todos iguais”

“Ser bom é fácil. Difícil é ser justo.” (Victor Hugo)
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No fogo cruzado, sobram farpas de todos os lados. No caso da Folha de São Paulo, por exemplo, vejam os articulistas Clóvis Rossi e Eliane Castanhêde. Posicionam-se em um lado, mais do que em outro. Marcos Nobre e Janio de Freitas opõem-se no lado contrário. E, é claro, sempre existem os “neutros”. Supostamente, pois acredito que também eles já têm a sua escolha. E entre A e B, dificilmente será C.

Estou falando de política. Um assunto o qual estou longe de conhecer profundamente. Passei a acompanhá-lo recentemente. Mas pensar e escrever, faço-o há mais tempos.

A neutralidade é necessária, mas também duvidosa. Pois em todo jornalista isento há um eleitor parcial. E quando, mais uma vez, algum proclama: "são todos iguais", já sabemos qual é a posição da imparcialidade: a parcial escolha do "deixe tudo como está”. Mas sobre isso falarei mais adiante.

Um exemplo de parcialidade no jornalismo é citado no último post do meu amigo Milton Ribeiro. Para ler o post, clique aqui.

Milton escarafuncha os arquivos da Veja, mostrando a contradição entre o que ela apregoava, e o que apregoa. O que eu tenho a dizer é que desde que a revista se juntou a Badan Palhares na hipócrita versão de passionalidade no crime de PC Farias, perdeu o meu respeito. Mas o erro de um editorial não está em mudar de opinião. “Não tenho vergonha de mudar de idéia porque não tenho vergonha de pensar”. Lembram-se? Cabe também à imprensa a mudança de ponto de vista. Isso é evolução. E cabe também a denúncia, o que é compromisso com a verdade. O que não é aceitável é a parcialidade vulgar em nome de uma falsa ideologia. Encaixa-se aí também o papel da IstoÉ no caso do dossiê.

Em relação ao post do Milton, creio que Reinaldo Azevedo está careca (e está mesmo) de saber que a Veja no passado já criticou o PSDB. Mas hoje ambos possuem inimigos em comum. Se Reinaldo Azevedo é cego em relação aos defeitos do PSDB, sei que não o é em relação às condutas graves do partido que hoje está no poder. Se uma certa emissora global tivesse se juntado hoje à revista na qual Reinaldo escreve, o atual presidente provavelmente teria tido impeachmant já no caso do Mensalão, e por motivos muito mais sérios do que os que envolviam o anterior caçador de marajás.

Política é um caso sério, que não é levado a sério no Brasil. Quando se fala em "político", já se pensa em piada. Pois é. É essa cultura da política brasileira que criou o democrático bordão "são todos iguais". É a democratização da bandalheira. Não sei se George Orwell concordaria com isso.

O que eu gostaria de saber é se “são mesmo todos iguais”. Se for, isso talvez justifique o fato de que as penitenciárias hoje são a escola do crime, um lugar de horror (mais do que deveria). Embora os bandidos políticos sejam tratados com distinção (e que distinção!), os “bandidos comuns” são tratados (e enclausurados) como iguais. O traficante, o ladrão de banco, o estuprador, o ladrão de galinha, o batedor de carteira, o 171, são todos comumente classificados na mesma categoria subumana de “criminosos”, sem distinção. Porém a constituição prevê penas diferentes de acordo com o crime. Isso significa que os crimes (e, por conseqüência, os criminosos), são, sim, diferentes.

Parece que as prisões do inconsciente coletivo também querem nivelar o tratamento dos “políticos” brasileiros, essa classe tão pitoresca e estereótipa. Mas essa “caridade” é aparente, apenas. Por trás de tudo isso o que há realmente é a submissão a um carisma ou o apego a uma ideologia. Para o povo, o assistencialismo justifica o crime. E para os intelectuais, Marx justifica Stálin. Em ambos, os fins justificam os meios.

Não há nivelamento. O que há é parcialidade. É interessante notar que quando o povo, ao saber dos crimes, diz: "são todos iguais, deixa como está", não percebe o equívoco de uma grave contradição (o período é um oxímoro). Quando iguala todos, supostamente demonstra neutralidade – "são todos ladrões com direitos iguais". Mas ao optar pela preservação, demonstra que, na realidade, não quer trocar de ladrão. Ou, melhor, não quer substituir o ladrão consumado pelo ladrão em potencial. Isso não é neutralidade. Isso é mais do que parcialidade: é conivência e identificação com o criminoso.

Está errado. O crime tem níveis. "Tudo igual" é um caminhão de japonês.

Imparcialidade, ou neutralidade, é estar do lado da justiça, não da omissão. Um juiz é neutro, imparcial, e justo. Isso é ter lado – o que se opõe à injustiça. A Justiça é cega, mas enxerga o erro.

O jornalismo deve ser imparcial, não omisso. Deve combater o erro, mas sem segundos interesses, como é o caso da Veja. A imprensa deve ser como uma tribuna. E a Tribuna, em sua isenção, enxerga falhas e as distingue.

Votar é escolher. E escolher é discernir entre erros e erros.

A conivência é filha da parcialidade.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

O debate

Não sou jornalista nem cientista político. Tampouco professor de Filosofia de alguma grande universidade paulista. Mas exponho, sim, a minha opinião sobre o tema nesse blog, que possui membros independentes, cada qual com suas concepções particulares sobre os assuntos que escrevem – e são livres para postarem os seus pensamentos sobre quaisquer assuntos no Mnemosina.

Sou um eleitor, e penso que há pelo menos dois tipos de eleitores: os que estão satisfeitos com a atual situação (política, econômica, social, ética, etc.) do nosso país, e os que não estão. Eu me vejo no segundo grupo.

É claro que há também os que não estão nem aí para uma coisa nem para outra. Mas vamos ao assunto.

O primeiro debate (entre Lula e Alckmin), creio, foi um dos acontecimentos mais esperados de 2006 (entre os sintonizados com o tema). Sim, o encontro entre os dois presidenciáveis foi histórico, tal qual foram alguns outros debates da história eleitoral brasileira. Criou-se uma grande expectativa para ouvir "as explicações que o presidente devia à sociedade", conforme as palavras de Cristovam – o qual teve um papel importante ao instigar a sociedade a "levar a disputa para o segundo turno", mas depois pulou fora...

O debate da TV Bandeirantes tornou-se uma arena na qual o candidato Geraldo Alckmin mostrou sua capacidade até então desconhecida de fazer duras críticas ao adversário. Lula, encurralado pelo Mike Tyson, foi para as cordas, mas manteve-se em pé. Houve praticamente nocaute técnico no primeiro round, mas nem o juiz nem os seus assessores podiam socorrê-lo.

Depois esboçou algumas reações. Lula é Lula – mesmo em desvantagem, não se subestime. Foi irônico, teatral, e com algumas insinuações perigosas – de apelo popular. Mas a noite já estava perdida.

Na entrevista do Roda Viva, da TV Cultura, Lula era outra pessoa. Solto, sempre líder, carismático, ao meu ver chegou a dominar os seus entrevistadores. Defendeu a sua “honra” até o fim, e chegou até mesmo a colocar Ricardo Berzoini na fogueira – mas depois afirmou confiar na integridade do ex-líder do partido.

O debate do SBT foi o mais maçante. De início, Lula estava muito nervoso. Não esboçou nem um sorriso. Não desgrudou dos papéis ("cola") por nem um minuto. Ele, que no debate anterior já tinha falado a palavra "sanguessunga", nessa vez cometeu outra gafe ao articular a frase "rememorizar a cabeça". Mas Geraldo, que cumpre o papel tudo certinho, ao invés de se aproveitar e desequilibrar o adversário, seguiu à risca a tática ditada pelos seus assessores, anteriormente. Foi “educado”. O confronto tornou-se técnico e programático, monótono. Lula respirou aliviado e cresceu no debate, e chegou até mesmo a ser mais duro do que o seu oponente.

No Roda Viva, Alckmin pareceu-me pedante no início, sempre prolongando-se demasiadamente em suas respostas, evadindo-se do tema, e procurando ignorar os jornalistas, optando por falar ao telespectador. Em minha opinião, isso é um erro. Uma entrevista com jornalistas ou um debate é uma conversa com “terceiros”, e não um dialogo direto com o telespectador. Não é igual à propaganda eleitoral. Com essa postura artificial e evasiva, o tucano deixou de responder objetivamente algumas perguntas, como a questão do “corte de gastos”, um dos pilares de sua campanha, e mostrou – como tem demonstrado – que essa idéia, na realidade, possui apenas apelo eleitoral. E não é dos apelos mais "empolgantes", convenhamos. Mas ao conversar com os jornalistas sobre a crise da Bolívia e sobre as pesquisas eleitorais, curiosamente o candidato se soltou e mostrou uma face mais verdadeira, mais sólida, mais convincente. Em suma, menos “fria” e “robótica”, e mais “calorosa” e “humana”.

No debate da TV Record, de ontem, a postura do tucano foi um misto da ousadia do primeiro debate com a submissão do segundo. Mostrou sua incrível habilidade de adaptar-se às circunstâncias, no sentido de “regular a dosagem” do tom, conforme o programado. Mas mostrou também a sua falta de habilidade para interagir com o adversário. Ao invés de falar “você é omisso”, por exemplo, ele prefere dizer (com voz complacente): “é importante você, telespectador, que está nos assistindo em casa, notar a diferença entre eu e o meu adversário. Ele é omisso.” – ou, ainda, “o seu governo é omisso”. “Somos diferentes. Aliás...” – e sempre que diz "aliás", abranda mais ainda o tom, e faz comparações numéricas ou repete algum bordão.

Percebem? É artificial, inadequado, não convence. Alckmin é controlado, fala pausadamente, escandindo as sílabas, e faz comparações pertinentes, citando muitos números de memória. É didático, ótimo professor. Mas mal debatedor. Evita – e até constrange-se com – o confronto mais direto, e poupa o adversário. Não é um dialogo com o oponente, é um monólogo com o telespectador. Falta vida, falta autenticidade, e isso incomoda. É linear demais, e, ademais, muito repetitivo. Vejam que a “citação de Santo Agostinho” foi eficaz no primeiro debate. Depois, repetiu-a no Roda Viva. E, novamente, repetiu-a no debate de ontem à noite. Simplesmente desgastou – e banalizou – a frase, como faz com todos os seus outros bordões cuja repetição demasiada enfastia até mesmo os próprios tucanos. E ao questionar o seu rival sobre o Nordeste, simplesmente levantou a bola para o petista cortar, implacavelmente. Penso que Alckmin foi mal programado.

Lula, por sua vez, estava muito à vontade no debate de ontem à noite. Muitos pontos à frente do seu adversário, permitiu-se mais uma vez ser irônico, mas sem demonstrar nervosismo. Não se perdeu com a papelada, não embromou as palavras. E, como sempre, manteve o discurso mais próximo do povo – sua marca registrada. É isso. Debate é mais emoção do que razão. Razão também conta. Mas repetir “equações racionais” à exaustão enche a paciência, Sr. Alckmin.

De resto, acredito que alguns simpatizantes do tucano estão demasiadamente otimistas em relação ao debate de ontem. Na minha modesta opinião, o favorecido foi o petista. Reinaldo Azevedo e Ricardo Noblat, por exemplo, estão otimistas. Mas eu acredito que, dessa feita, Josias de Souza foi mais realista: “Terceiro debate é marcado por repetições e mesmice”.

A expectativa inicial para acompanhar o confronto entre os dois presidenciáveis transformou-se em tédio. É pena, pois houve uma rica oportunidade para haver confronto com verdade e apresentação de soluções reais para o nosso país, além da abordagem firme, sincera e direta do gravíssimo – sim, gravíssimo – problema da corrupção. Fracassaram.

Foram três confrontos. E falta ainda o debate da Globo. Será a derrocada final.

Alckmin, o frio, racional, calculista, apolínio. Lula, o ardoroso, emotivo, espontâneo, dionisíaco.

Alckmin mostrou-se muito complacente, poupando – e subestimando – o adversário, ao extremo. Como se não precisasse lutar pela tão disputada posição, e como se as coisas fossem se resolver por si mesmas. Lula é mais político do que Alckmin. Lula é mais teatral, e por isso mesmo, mais verdadeiro. Ou, em outras palavras, uma mentira de Lula vale mais do que dez verdades de Alckmin.

Sim, a única chance do tucano estava em ser implacável, e, principalmente, em como sê-lo, como seria, por exemplo, um FHC, um Collor ou um Jefferson – e até mesmo José Serra ou Heloísa Helena – diante de tal oportunidade. Lula é imbatível em seu terreno – o “populismo” – e, nas atuais circunstâncias, a única maneira de vencê-lo é desestabilizá-lo emocionalmente, questionando-o e pressionando-o com rigor – sem deixar de lado a respectiva solução “programática”.

No atual cenário o preço a pagar será alto. O falso Apolo se perde em sua própria racionalidade insossa, enquanto lega a Dionísio a chance de reinar nesse maravilhoso teatro olímpico por mais quatro anos, inabalável em seu poderio regado a fermento e uva, e embriagando deleitosamente a fertilidade de uma Grécia inculta.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Mozart foi assassinado porque sabia demais!



Esse é a teoria do escritor italiano Tito Gilberto, que propõe uma história de mistério digna de Sherlock Holmes.

De acordo com sua teoria, Tito afirma que a morte do compositor austríaco foi queima de arquivo.

Em 1790, o imperador austríaco José segundo foi envenenado por adversários políticos e “Mozart sabia algo sobre a morte misteriosa do soberano e por isto foi eliminado.”

O resultado de anos de investigações podem ser conferidos em seu mais recente livro, um romance policial, onde Tito lança essa teoria baseado na descoberta de um pentagrama, que Mozart teria desenhado no manuscrito do seu Requiem K626. Teoria que pode mudar a história de um dos mais amados compositores de todos os tempos.

Tito afirma que escreveu o livro enquanto ouvia atentamente o Requiem do compositor em questão.





Só não sabemos o quão atento Tito estava ao ouvir o famoso Requiem, pois o título de seu livro é “Mozart: crimes em ré maior” e, como todos sabemos, a tonalidade da última composição de Mozart é ré menor.

Porque mudei meu voto

PORQUE VOU VOTAR NO LULA

Gostaria de comunicar a todos vocês que mudei de idéia. Creio que Lula, afinal de contas, realmente não sabe de nada.

Ele realmente não sabe de nada. Mal sabe ler e escrever.

Mas isso não é o mais importante. O mais importante é a sua onestidade: ele ajuda os pobres.

Vou provar, por A mais B, que Lula é onesto:

Ele criou o Bolsa-Família. Ou seja, se preocupa com os pobres. Ele veio lá de baixo, e subiu até lá em cima. As elite não gosta de pobre. Mas Lula gosta. Ele é pobre, mais ajuda os mais pobre do que ele.

Tem jente que fala que seu filho (o Lulinha) é rico, e que o Lula tem mais dinheiro do que o Geraldo. É mentira. Mas, e daí? Ele lutou e se esforssou. Chegou lá porque merece.

Nunca antes neste país um operário foi presidente do Brasil. Isso prova que ele é onesto, pois pobresa é cinônimo de onestidade.

Muitos intelequituais já começam a reconhecer o bril e o caráter de Lula. Prova disso é que ele denunciou a corrupissão. Antigamente a sujeira ficava embaixo do tapete.

Foi pensando nisso que resolvi mudar o meu voto e votar no Lula. Afinal, em relação ao Alcmin e à Fernando Enrique Cardozo, todo mundo sabe que o grande pobrema é a privatisação. Tudo eles quer privatisar. Alcmin falou que em seu pograma de governo, ele vai privatisar tudo, inclusive a Petobras e todos os bancos do Brasil. Esse é que é o pobrema.

Até o Aerolula ele quer privatisar. Essa jente não gosta de pobre.

Essa jente implica com todos os amigos de Lula. Até com o churrasqueiro.

A grande verdade é que todos os amigos de Lula, no fundo, são onestos. Prova disso é que os mensaleiros foram absolvidos, e o Fróid também. E se algum deles errou, a culpa não é do Lula. Ele não é obrigado a saber de tudo. A culpa é dos aloprados. Prova disso é que quando Lula ficou sabendo da currupissão, ficou brabo.

Coitado do Lula!

Implicam com ele porque ele bebe. Ora, pobre também não pode beber? Só rico pode beber uísque?

Pobre também tem direito de beber uísque. Pobre também tem direito de comer o seu bifinho, o seu arrozinho e o seu feijãozinho.

Parem de implicar com o Lula. E, se querem saber, se ele criar o Bolsa-Cachaça, eu aprovo!

Lula é como nós. Bebe como nós. Fala palavrão como nós. Tem emoção, como nós!

Ele é do povo!

Bem, creio que, com essa análize, ter provado por A mais B que Lula é onesto. Afinal, é pobre, sem estudo, e é jente como a jente.

Deixa o homem trabalhar!

É Lula de novo, com a força do povo.